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TITULO:  
A essência da educação universitária

AUTOR:  

Sabrina Chagas de Almeida (*)

  

Sistema educacional. Educação universitária. Importância da filosofia no direito.
Ciência, tecnologia e filosofia. Globalização.
Cidadania e conscientização. A responsabilidade da sociedade.
Entende-se como essência da educação universitária a verdadeira formação do
homem, indivíduo pleno e consciente de sua própria existência, um cidadão que
sabe se relacionar com o mundo como um todo. O homem diferencia-se do animal
exatamente por ser um ente dotado de espírito, de existir face ao conjunto da
realidade que o circunda.
A formação do homem se verifica quando a instituição procura realizar as
verdadeiras potencialidades dele, que oriente seus alunos ao pensamento
universal, com o firme propósito de abertura para o todo, que desde sempre tem
sido designado e entendido como filosofar. (1)
A Universidade, como o próprio nome permite vislumbrar, deve manter-se fiel a seu
objetivo maior, que é a contemplação do todo, de todo o universo, portanto é de
extrema importância que toda e qualquer matéria cientificamente estudada, seja
vista também sob um ângulo filosófico.
O estudo simplesmente científico e técnico enclausura o homem, o cerceia do
verdadeiro espírito universitário. A ciência limita o homem porque é precisa e
comprovável, ela focaliza o objeto de estudo apenas sob o ângulo que se pretende
comprovar. Assim, ao atingir a meta almejada, aquele objeto até então estudado
deixa de despertar interesse. É evidente que a ciência é muito importante, mas
não se deve esquecer da suprema importância, que é o poder de refletir, analisar
e, primordialmente, raciocinar.
A ciência evolui rapidamente e a tecnologia pode ser encontrada em todos os
aspectos da vida, mas faz parte da própria essência do homem o raciocínio, ou
seja, a filosofia.
Ao filosofar o ser humano se propõe a discutir questões irrespondíveis, ele pensa
em todas as possibilidades e hipóteses sobre aquela determinada questão. O
filósofo pretende conhecer a fundo essa questão, o seu significado, a existência
do problema, enfim, o porquê de todas as coisas.
Aliás, o próprio ato de perguntar é uma forma de aprender a raciocinar, porque
dessa forma fica-se no encalço da realidade, com a atenção voltada a ela, o que
constitui a natureza do espírito.
Repito que filosofar é perguntar, e perguntar é uma forma de aprender a
raciocinar, e isto porque no mundo atual poucos sabem fazê-lo. O sistema
educacional instituído no país não têm interesse em formar seres pensantes,
assim, dessa forma, é mais fácil manipular a massa. Por sorte, existem alguns
remando contra a maré, como diria a provérbio popular. São esses poucos que
iluminam o caminho dos alunos, mostrando-lhes a essência da educação, a formação
plena do cidadão.
Nesse contexto, pode-se afirmar que o núcleo da educação universitária é
aprimorar e, na maioria dos casos, ensinar a filosofar, que em meu entendimento é
o próprio ato de pensar e raciocinar por si mesmo.
A reflexão filosófica implica o conhecimento, o esclarecimento de algo que já era
conhecido, visto sob um novo ponto de referência, um novo ângulo. É a recuperação
de algo esquecido, segundo Platão. Inclusive Pieper afirma que: "ao homem não é
necessário ampliar o seu saber acerca do mundo, mas talvez seja mais necessário
ainda lembrar-se das verdades imutáveis e ser lembrado delas. E fazer isto de
espírito inteiramente vigilante, sem fugir romanticamente da realidade, nada
esquecendo ou desprezando do que, criticamente, sabemos sobre nós próprios e
sobre o mundo."
A insituição universidade deve abrigar tanto a ciência quanto a filosofia, visto
que ambas se completam. A técnica científica é necessária para o progresso
tecnológico do povo, assim como para garantir a existência e prover as
necessidades da vida, afinal, em nosso mundo mecanicista é necessário, e até
certo ponto indispensável, conhecer a ciência em todos os seus detalhes.
Agora, para realmente se tornar um bom profissional, esquecendo-se por um minuto
o aspecto pessoal, é imprescindível ter uma visão do todo, de todo o contexto que
circunda aquele aspecto analisado. Principalmente nas profissões sociais, como
exemplo a advocacia, que envolve uma série de aspectos diversos da técnica pura e
simples do direito. E é evidente que o aspecto pessoal da reflexão filosófica
precisa ser lembrada porque torna o homem um indivíduo verdadeiramente livre, com
opiniões pessoais, que entende perfeitamente o contexto social em que vive,
procurando sempre satisfazer a sua própria existencialidade, tornando-se o que
realmente é como um ser, tendo receptividade à totalidade do mundo.
Após afirmar que a instituição universidade deve abrigar ciência e filosofia, vêm
a mente nossa cruel realidade, em que as grandes instituições estão menosprezando
o papel da filosofia em seus currículos escolares. E até aquelas que ainda a
mantém no curso, ensinam, muitas vezes, de forma equivocada, distorcida do que
verdadeiramente é.
Vê-se que muitas instituições se auto denominam universidades, mas na verdade não
são. Por fim, abandonam a essência de sua existência e também não conseguem
atingir um alto nível de ciência para formar ótimos técnicos.
Na verdade, qualquer empresa forma seus técnicos conforme suas próprias
necessidades, portanto, não é a universidade que vai atender as necessidades do
mercado de trabalho, pois existem inúmeras empresas, com os mais variados
interesses e precisando de diferentes técnicos para atendê-las. Torna-se clara a
função da universidade de "preparar o homem por inteiro, enquanto ser
inteligente, sensível e espiritual que anseia por uma compreensão abrangente do
mundo que o cerca e de seu próprio papel na existência." (2)
Assim, dessa forma, a universidade estará preparando o homem para o todo, e mesmo
que não tenha qualquer técnica específica para determinada empresa, possui
aquelas que são básicas para desenvolver-se conforme as necessidades dessa
empresa determinada. E isto só é possível quando o homem está receptivo ao mundo
que o cerca.
Esta abertura para o todo é imprescindível, é o que o torna flexível, conseguindo
adaptar-se às mais duras realidades da vida, ele começa a entender a associar
todas as idéias existentes no mundo, especialmente num mundo globalizado.
Quando a universidade cumpre o seu maior objetivo, com a essência da educação,
seu aluno sempre indagará a respeito do todo, querendo saber o que o todo tem que
ver com esta realidade concreta: "What is it all about?" (3)
Creio que a universidade tem como própria essência de sua existência, a educação,
e, conseqüentemente, a filosofia está intrinsecamente ligada à ela. Então, é
necessário que nos bancos universitários se aprenda a compreender plenamente, a
realidade.
Resta considerar que é a comunidade humana que determina o papel da educação, e
apenas uma comunidade consciente e que considere necessária a existência de uma
escola superior em sentido pleno, dirigida para esse papel ideal maior que é a
formação do cidadão é que exigirá uma instituição que tenha por projeto o
confronto do homem com o todo real.
E nesse ponto, entramos num ciclo vicioso: é a universidade que segue seu
objetivo principal que forma cidadãos plenos; e são cidadãos plenos que
constituem a sociedade que exige uma universidade, no sentido amplo da palavra.
Dessa maneira fica difícil modificar a atual situação em que nos encontramos, mas
é importante não desistir desse empreendimento maior.
Acredito que a dificuldade da reversão desse processo resida na mediocridade que
muitas pessoas se encontram (é evidente que existem várias exceções e em inúmeros
níveis de desenvolvimento), porque nem chegam a sentir a falta de pensar por si
mesmas ou imaginar que podem alçar grandes vôos, se conformam com a situação e
assim permanecem, imutáveis nesses pensamentos pequenos. Sentem-se impotentes de
crescer espiritualmente e isto, como tudo, requer algum esforço próprio.
"O camelo que quer ver sua corcova torce o pescoço" - Provérbio Árabe.
(1)Josef Pieper
(2)Gilda N. M. Barros
(3)Whitehead, citado por Luiz Jean Lauand
(*)A autora é advogada em São Paulo, professora de direito tributário na
Faculdade Interlagos, especialista em direito processual civil, tributário e
especializanda em direito econômico pela Fundação Getúlio Vargas, e coordenadora
da subcomissao contra as discriminacoes nas relacoes de consumo da comissao de
defesa do consumidor da oab/sp (98-00). E-mail: sabrina@aasp.org.br
BIBLIOGRAFIA
HANANIA, Aida R. e LAUAND, Luiz Jean - Oriente e OcidenteI: Língua e Mentalidade,
São Paulo, Centro de Estudos Árabes - FFLCHUSP/APEL,1993.
LAUAND, Luis Jean (org.) - Ética: Questões Fundamentais, São Paulo,
EDIX/DLO-FFLCHUSP,1994.
LAUAND, Luis Jean - Oriente e Ocidente II: Filosofia e Arte, São Paulo,
DLO/FFLCHUSP,1994.
PIEPER, Josef - Abertura para o todo: a chance da Universidade, São Paulo,
APEL,1989.


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